Sem Título

Autor: 
Kerolyn Ramos
Música Inspiradora: 
Breathe No More

Em frente ao espelho, ela observava sua imagem merencória. Estava parada, de frente para aquele que refletia sua dor, por horas.

I’ve been looking in the mirror for so long...

Seu âmago parecia tão devoluto que sua alma transpassou aquele objeto, tornando-se parte daquela imagem refletida.
Ela havia perdido tudo... Até mesmo sua alma estava prestes a perder-se no completo vazio da dura realidade.

That I’ve come to believe my soul’s on the other side…

Tal pensamento fez com que um fulgor de ódio tomasse conta dela. Despejou toda sua ira no espelho, como se este fosse o culpado por seu estado lastimável.
De sua mão, o sangue pelo impacto escorreu. Ela viu sua imagem mórbida em cacos quando o estrondoso som do espelho se chocando com o chão foi toado.
Os pedaços estavam espalhados pelo cômodo floreado, conspurcados pelo símbolo carmesim da vida... E da morte.
Em cada vestígio ao chão, uma parte dela.

All the little pieces falling...shattered

Numa tentativa desesperada, ela agacha e começa a catar cada mínimo pedaço de espelho.
E mais um corte apareceu em sua tênue mão.

Shards of me...too sharp to put back together

A dama de branco levanta, observando os fragmentos de espelho ao chão refletirem partes contorcidas dela.
Fragmentos de sua alma.
Pequenos demais...

Too small to matter…

Pequenos demais... Mas que conseguiram destroçá-la. Cáusticos como fogo, que a tornaram tétrica.
Ela desabou de joelhos, sofrendo o impacto contra o chão indolente.

But big enough to cut me in to so many little pieces...

Um olhar hipocondríaco foi lançado a cada fragmento de alma lutuosa que estava no espelho destruído.
E novamente, ela tentou tocá-los. Mais uma vez, ela tentou tocar sua alma.

If I try to touch her...

Sua alma — ou o que restou desta — a perfurou.
E ela sangrou.

And I bleed...

Sangrou...

I bleed...

Sua respiração enfraqueceu e ela viu sua vida esvaindo-se. Será que ela ainda respirava?

And I breathe...

Ela não sentia mais a própria respiração. Nem mesmo sentia-se viva. Hipocondríaca, ela tentava de alguma forma não se afogar nas próprias lágrimas.

I breathe... No more.

Sua sensação era de afogamento, como se tivessem lhe cortado todo o oxigênio brutalmente. Num súbito, ela inspirou o máximo de ar que seus pulmões suportavam e enfim conseguiu tomar fôlego.
Ah, como gostaria que seu espírito se elevasse junto com sua fraca respiração.

Take a breath and I try to turn off what my spirit will

Ela ainda se encontrava hipocondríaca no chão, ao lado dos pedaços de espelho manchados de sangue, quando a enfermeira entrou com suas cápsulas entorpecentes. Indolente, a mulher de jaleco branco estendeu as cápsulas à dama exangue.
E foi brutalmente repelida.
A enfermeira olhou pesarosa para a paciente ao chão. Suas palavras saíram secas e insípidas, enquanto ela obrigava a moça a engolir sua droga.

“Yet how can you refuse to drink like a stubborn child?”

A donzela engoliu a contra gosto, sentindo os comprimidos descerem causticando sua garganta. A enfermeira catou rapidamente todos os cacos de espelho espalhados e enquanto ela limpava, a dama olhava cada movimento sem dizer qualquer palavra. Perdida nos próprios devaneios.
A enfermeira suspirou, segurando a garota pelo braço e limpando-a em seguida, por pura obrigação. Passava o pano branco e os remédios necessários por cada corte, colocando os curativos necessários. Sem o mínimo zelo, sem qualquer tipo de afeto ou sentimento. Virou-se, andando em direção a porta. A dama observava o céu escuro pela janela, com grossas lágrimas escorrendo por sua pele lívida.
Suas mãos tremiam.
Voltou-se pesarosa para a enfermeira, gritando as palavras.

“Lie to me!! Convince me that I’ve been sick forever!”

A enfermeira continuou seu trajeto até a porta, ignorando completamente os berros desesperados da dama. Saiu, deixando a garota sozinha no quarto de hospital. A dama suspirou, sussurrando sozinha palavras das quais lhe foram entregues milhares de vezes.

“And all of this...will make sense when I get better”

Minutos se passaram, com a moça observando o céu obscuro. Nenhuma estrela cintilava. Seu brilho estava escondido pelas nuvens escuras, impedindo-as de mostrar ao mundo um pouco de fulgor.
A porta do quarto se moveu devagar, enquanto mais alguém adentrava o recinto.
Ela virou-se, mas ainda sem olhar o homem que ali se encontrava. Ele observava os curativos pelo corpo da garota, movendo a cabeça num estado de puro desgosto. Os olhos dela pairavam num pedaço de espelho olvidado. Num sussurro quase inaudível, ela pronunciou o que seu coração sentia.

“But I know the difference...between myself and my reflection...”

Abaixou-se laconicamente, pegando com as mãos machucadas o pequeno pedaço de espelho. Focou os olhos no homem, jogando suas palavras.

“I just can’t help but to wonder... which of us do you love?”

Seus olhos não desviaram em nenhum segundo. Colocando o espelho sobre a cama, ela voltou-se para o céu. Pôde escutar a porta sendo fechada, enquanto vagarosamente ela abria a janela.
A brisa entrou no quarto, balançando as madeixas da dama. Seus curativos estavam tingidos de carmesim, assim como suas vestes.

So I bleed...

Ela ainda sangrava. E sangraria pelo resto de seus dias, olvidada naquele quarto de hospital.
I bleed...
And I breathe...
I breathe... No!

Num surto de insanidade, ela arrancou todos os seus curativos. Estava cansada de tudo, apenas gostaria de acabar com toda dor e sofrimento.
Os curativos estavam jogados no chão, enquanto ela observava pela última vez o céu sem estrelas. Como cai uma folha seca, a dama despencou laconicamente, batendo contra o chão indolente.

Bleed!! I bleed!!

Sugava o ar com extrema dificuldade, sentido sua vida esvair-se pelos machucados mal tratados.
Ela entendeu que ninguém a queria viva, ninguém sentiria sua falta se por um acaso ela não estivesse mais ali. A mantinham por obrigação, e ela não queria continuar ali.
Sangrava... Sangrava... A dama exangue chorava desesperada no chão, sujando-se cada vez mais de sangue com movimentos intencionais. Ela queria estar conspurcada com o próprio sangue, por um desejo sombrio oculto que nem mesmo ela compreendia. Seus últimos suspiros foram jogados ao quarto solitário.

And I breathe...I breathe...
I breathe...

Sugou o ar mais uma vez… e mais uma… mais uma… E pela última vez. Seu coração, antes pulsante, agora se encontrava adormecido e olvidado em meio a tantos sentimentos confusos. Nunca mais voltaria a bater.
Suas pálpebras se fecharam melancolicamente, enquanto uma última lágrima escorria pela pele lívida e morta.
A lágrima pingou no chão, misturando-se ao sangue exposto.
No céu, uma estrela cadente passou, dissipando assim todas as nuvens que cobriam o brilho das estrelas e a luz da Lua cheia. A imagem de uma dama era vista na Lua, quando as lágrimas pesarosas do céu foram despejadas na cidade.

A dama não respirava mais.

I breathe…No more...

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